
GINGINHA COM ELAS
Nos alvores da mocidade designou-me a boa fada para um
lugar de "barman" numa daquelas casas já em desuso, mas que foram
pontos de encontro obrigatórios para boémios da bonita Lisboa.
Algumas desses estabelecimentos ainda existem com a
palavra Ginjinha a compor o nome.
O ara do mister situava-se junto do celebérrimo Parque
Mayer, outro lugar que as musa jamais deixarão de proteger, pelo que esse
cantinho de Lisboa tem sido fonte de inspiração a boémios, poetas, pintores, prosadores
e que seu eu?
Talvez mesmo a escroques, numa miscelânea do sagrado
com o profano.
Acumulando com o afã dos estudos, orgulhosamente
servia as ginjinhas, popularizadas em vozes de oiro, como a de Hermínia Silva, por
exemplo.
Servia-as a pessoas famosas e não famosas. Ministros,
vendedores de jornais, estudantes, pintores, escritores, artistas, turistas,
criminosos, criminologistas, etc.
Considerava vantajosa experiência, de viver rodeado de
gente de todas as classes sociais.
Experimentava, pelo facto, um orgulho extraordinário.
O desempenho diário da minha missão, naquele lugar que
considerava maravilhoso e que jamais deixarei de evocar. Cessava com o badalar
das duas da matina, hora em que por esse país cantam milhões de galos,
anunciando o despertar do primeiro sono.
Num desses belos dias, mesmo à hora de encerrar, em
que já por habituação o corpo exigia o merecido repouso, entra um estranho
cliente.
Personagem de aspecto solitário, olhos pequenos, nariz
achatado, olhar meio trocista.
A sua idade seria cinquenta anos; cinquenta anos
calmos e dominadores.
Fazia lembrar; qual judeu errante procurando avoengos
que, tivessem gozado o privilégio de terem tido por berço a sonhadora Lisboa.
Com naturalidade, foi solicitando bebidas que ia
ingerindo com calma de grande filósofo.
Ia correndo o tempo, a hora de encerrar a
"tasca" fora ultrapassada.
Os transeuntes, na sua maioria artistas, que iam
saindo libertos das suas obrigatórias actuações nas salas do Parque Mayer,
entravam felizes pelo ensejo de ainda poderem tomar a ginjinha e iam ficando,
atraídos pelo personagem.
Mantendo a mesma serenidade, o mago já desbobinava o
seu "show" de dialectos, que iam desde o português abrasileirado, até
à língua dos czares, passando pelo espanhol aportuguesado, italiano, Inglês,
francês e alemão.
A madrugada já se aproximava veloz e principiara ele a
demonstrar outra face:
- A leitura nas linhas da palma da mão, de cada
circunstante. Sempre a mágica serenidade de que só são possuídos querubins ou
serafins.
A mistura de serenidade e palavras magicamente
arrazoadas, pareciam já capazes de arrastar uma multidão para o mais inóspito
deserto...
Havia já sido formado um grupo, assim em jeito
familiar. Cada um desatara a carpir os seus desaires. O álcool da ginjinha
fazia surtir efeitos.
A vasta Avenida era completamente deserta. Na caixa
registadora o metal soava, vindo dos magnos bolsos de tão espontânea clientela.
Dos escudos que se encontravam naquela, na altura, eu
era eu o único responsável.
Não obstante a minha juventude, a escola que a vida me
tinha ministrado aconselhou-me a suspender a sessão, com ordens sucessivas
cheias de autoridade.
Embora com imprecações, os circunstantes aos poucos
foram abandonado o "santuário".
Com a felicidade estampada no rosto, por sentir
cumprido o; dever de empregado, cerrei a porta do estabelecimento a sete chaves
e altivamente, fui Avenida abaixo assobiando uma ária a ecoar na sonhadora
solidão da cidade, que ainda se quedava adormecida.
Não me deixavam, porém, a mente os presságios que me
assaltavam o espírito.
No dia seguinte, entre duas ginjas, alguns consulentes
da enigmática, enquanto simpática figura, comentavam como haviam sido traídos
na sua boa-fé.
Certas quantias haviam sido a paga que o desconhecido
levara em troca de bons presságios, que a leitura das linhas da palma da mão,
foram ditando.
Sem deixar rasto, o personagem desaparecera para
sempre, como que, por artes de magia.
Daniel Costa
Sem comentários:
Enviar um comentário